Reconstruindo os trajes das classes trabalhadoras (1850-1915)

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Saudações

 

Um amigo no Facebook me apontou sem querer o fato de que não há nenhuma postagem nesse blog que atente para a indumentária das classes operárias no período entre 1850 e 1915. Isso é uma grande injustiça, eu confesso, mas a verdade é que os registros visuais que temos desses grupos são muito pequenos diante dos registros da classe média urbana, da alta burguesia ou das casas nobres. São vários os fatores que influenciam isso, a começar pelo custo da fotografia. Mas, ainda que poucos, temos alguns registros visuais e textuais sobre as classes trabalhadoras, o suficiente para esboçar uma reconstrução desses trajes.

Como regra geral, consideremos que a vestimenta dos trabalhadores obedeceria minimamente à silhueta da época, mas preservando a mobilidade necessária à faina diária. Os tecidos são os mais simples e escuros, que não são tão danificados com as sucessivas lavagens e poderiam até ser tingidos em casa se necessário; materiais pesados e resistentes ao frio, bem como capazes de proteger o corpo durante o trabalho, eram igualmente empregados. Tecidos claros e detalhes bordados estariam reservados para dias especiais – para ir à missa no domingo, festas da Igreja, bailes, teatros populares, casamentos e outras festas familiares. Lã e tecidos de algodão eram usados para as roupas em geral, enquanto o linho mais grosseiro era destinado à roupa de baixo, como calções e camisas.

A MULHER TRABALHADORA

Esqueça o espartilho. Eram peças muito caras, que serviam mais como demonstração de status social e ostentação de riqueza do que qualquer outra coisa. Uma trabalhadora (criada, lavadeira, operária, vendedora) dificilmente usaria um espartilho no dia-a-dia. Talvez nas ocasiões especiais citadas acima, mas certamente não seria uma peça de primeira linha ou mesmo primeira mão. Se você tiver como evitar o corset, faça-o; se não tiver como abrir mão dele, não aperte demais. As cinturas muito finas eram quase que prerrogativa das classes altas.

Como alguém que precisa trabalhar para sobreviver, você optaria por roupas funcionais e resistentes. Usaria apenas uma anágua, mais pela questão de decência do que para inflar a saia, feita em algodão branco, que resiste à lavagem e às engomadas. A saia seria a mais simples possível, rodada ou não, mas sem cauda ou muitos detalhes; dê preferência a tecidos como mescla de lã, sarja ou brim em tons escuros (marrom, preto e cinza são os melhores). A camisa seria igualmente simples, de gola alta e que não restringisse os movimentos, feita em algodão claro. Por cima, o avental branco era obrigatório no trabalho e nas tarefas doméstica, principalmente porque diminuía a sujeira que caía na roupa. Era comum que as mulheres usassem também uma touca e os cabelos bem presos, por questões higiênicas e também para evitar acidentes. Nos pés, as botinas eram a regra.

Alguns registros fotográficos que podem ajudar:

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Essa foto retrata uma típica fábrica do fim do século XIX- começo do XX e foi publicada pela primeira vez em 1909. Observe a variação de tonalidade e a simplicidade das roupas.

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Foto de uma cervejaria de 1914. Note que as mulheres haviam incorporado o uso das calças no uniforme de trabalho. Isso não era uma regra, mas sim uma exceção, mais comum nos Estados Unidos do que na Europa ou Brasil.

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Trabalhadoras das minas de carvão inglesas, em 1860. Estávamos aqui no auge das gigantescas crinolinas, mas veja como a silhueta da trabalhadora não obedecia integralmente às regras da época. Possivelmente debaixo dessa saia está uma anágua de cordão, mais barata de ser feita, podendo ser lavada e engomada em casa sem grandes problemas.

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Operárias de uma fábrica de algodão. Essa foto já é do século XX, mas não tenho uma data precisa para ela.

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Foto de 1913 retratando vendedoras de uma loja de departamentos. Note as barras mais altas nas saias, que me parecem feitas à mão, e a simplicidade das roupas. Tudo muito funcional e básico.

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Os trajes mais elaborados – mais próximos da silhueta dominante de cada período – eram reservados às datas especiais. Veja os chapéus e as saias mais longas.

Vou usar abaixo alguns stills do seriado Downton Abbey, que tem uma produção de figurino exemplar.

Os empregados do serviço doméstico, especialmente nas casas mais ricas, obedeciam a regras muito rígidas de vestuário. Havia a idéia de que o asseio e a moral dos empregados refletia a própria honra da família. Da esquerda para a direita: 3 empregadas de limpeza e cozinha, 2º volante (criado móvel, que exercia várias tarefas como servir a mesa), aia (criada pessoal da dona), Mordomo (chefe-geral dos criados), governanta (chefe das empregadas), valete (criado pessoal do chefe da casa), 1º volante, 3 criadas que serviam diretamente à família.

Vestuário em dias de folga. Lembram do que falei sobre as cores e tecidos?

Traje em dias de festa. Enquanto as classes altas usavam tecidos brocados ou bordados, as classes trabalhadoras optavam por padronagens como xadrez e listras.

 

O HOMEM TRABALHADOR

Como o vestuário masculino era visivelmente mais simples e sóbrio, é nos materiais que o homem trabalhador vai se diferenciar do homem de classe alta. Mas você nunca vai ver um trabalhador usando uma cartola, que era o símbolo do burguês bem-sucedido; em lugar disso, opte por uma boina ou um chapéu de palha trançada. A calça era normalmente de tecido de lã escura, reta, de cintura alta e mantida no lugar por suspensórios; aqui você pode usar uma calça de sarja escura que não tenha bolsos nas laterais, do tipo cargo. A camisa era de um tecido de algodão ou linho grosseiro, normalmente clara. Na falta das casacas tão características do burguês, o trabalhador costumava usar colete, porque aparecer apenas de camisa era considerado algo indecente; esses coletes eram confeccionados em tecidos xadrez ou listrados, bem mais simples que os brocados usados pelas classes altas. Nos pés, as botas eram mais comuns que os sapatos. Você pode usar as ligas-de-braço também, já que elas serviam para sustentar a manga das camisas durante o trabalho. No inverno, as jaquetas de fustão protegiam a pele do frio; lembro do meu professor de Moderna II relatando que a boina, a calça escura e a jaqueta de fustão eram o traje característico de um operário inglês no meio do século. Imagens para referência:

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Foto provavelmente tirada entre 1850-1860.

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Trabalhadores de uma cervejaria no fim do século

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As imagens de referência do traje masculino não são muito abundantes, infelizmente. Ainda assim, acredito que dê para ter uma ideia global da coisa.

Gostaria de deixar duas referências em vídeo: o filme “O Germinal” e a série “North and South” da BBC, ambos baseados em romances escritos durante o século XIX e com um excelente nível de figurinos.

Deixo aí embaixo mais algumas imagens e comentários:

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Foto do século XX. Fábrica não identificada.

11Uma das piores facetas da Era Vitoriana:o trabalho infantil

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Vendedores ambulantes eram figurinhas comuns nas ruas das grandes cidades do Ocidente. Nessa foto vemos uma dessas vendedoras na Alemanha, em 1900.

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Lavadeiras, 1890-1900

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Os músicos de rua também era comuns.Essa foto é boa para ter uma ideia das roupas infantis.

Historiadora, estudante de Museologia, professora de História & Geografia, coordenadora da Sociedade Histórica Destherrense. Vive em Florianópolis, dividida entre gatos, tecidos e livros.

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