Um pouco sobre forros no século XIX + Bolero Zouave

O tipo de forro que usamos nos dias de hoje é montado de modo a esconder as costuras. Ele pode ter ou não os mesmos painéis que a parte externa da roupa, mas geralmente é montado como uma peça à parte, unida à principal em alguns pontos.Enquanto o efeito estético é bastante, já que as costuras ficam escondidas, este método dificulta ajustes na roupa, ainda mais considerando que os tecidos usados para forros são sintéticos e muito sensíveis às costuras.

Especialmente no século XIX, este tipo de forração não era utilizado. A técnica mais comum era o flatlining, mais fácil de ser executado e bastante prático, ideal para um período em que os tecidos de vestidos de décadas anteriores eram reformulados para se adaptar às novas silhuetas.

flatlining é executado cortando-se cada uma das peças da roupa 1x no tecido externo e 1x no forro, que deve ser de algodão ou cetim. A seguir, cada peça é unida com o seu respectivo forro, usando o zigue-zague da máquina doméstica ou uma overloque, e procede-se à montagem da peça normalmente.

Kent State University Museum
Detalhe de um corpete dos anos 1880, propriedade do Kent State University Museum.

Não é incomum encontrarmos trajes originais com margens de costura exageradas para os dias de hoje, mas compreensíveis por questões econômicas da própria época. Estas margens recebiam diferentes tratamentos. Alguns exemplares de museus apresentam corte com tesoura de picotar e são deixadas sem qualquer costura de arremate. Outras são cuidadosamente finalizadas com viés. Há ainda as que são finalizadas com uma costura de mão em diagonal, com o objetivo de evitar o desfiamento do tecido. Em todos os casos, as costuras são abertas a ferro e as canaletas para as barbatanas são costuradas à mão na parte interna. Este corpete de baile dos anos 1850 vai deixar o texto mais claro:

bodice

Já fazia algum tempo que eu queria testar o flatlining de uma maneira decente. Minha primeira tentativa, com cetim, foi tão desastrosa que acabou nem sendo fotografada. A primeira providência para este novo teste foi a troca do cetim por um algodão daqueles de fazer lençol. A peça a ser feita era uma Jaqueta/Bolero Zuave, sobre o qual já falei aqui. Para tecido externo escolhi uma tricoline xadrez, que já combinava com uma saia de shantung verde que fiz ano passado.

Para o molde, utilizei como base a modelagem de um corpete 1890, alterando as linhas do ombro e da cava para se adequarem ao estilo do 1860. Infelizmente, acabei esquecendo de bater foto da modelagem da manga :/

A fita crepe é minha melhor amiga nessas horas.
A fita crepe é minha melhor amiga nessas horas.

A frente é cortada em uma peça única, mas as costas têm este desenho característico da Era Vitoriana. Como o recorte não aparecia muito no meio da padronagem, e eu queria destacá-lo depois de todas as alterações bizarras no molde, resolvi testar uma outra técnica típica do período, usada para proteção e decoração: o infame piping.

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Mais fácil do que pensei que seria, mas ainda longe da perfeição

 

VAMOS AO FORRO

Antes de começar a mexer no molde eu já havia decidido que queria uma peça que não só fosse bonitinha, mas que tivesse o interior historicamente correto. Isso significa posicionar as costuras nos ângulos corretos e forrar o bendito com a técnica de flatlining, fazendo também os acabamentos corretos.

Comecei unindo cada peça ao seu forro e fazendo o acabamento com zigue-zague. Embora não seja o melhor dos acabamentos (uma overloque faria um trabalho melhor), é o mais próximo do tratamento de costuras da época que eu posso fazer usando uma máquina doméstica. Direito e avesso das peças da frente:

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Fiquei bastante satisfeita com o resultado exterior da peça:

20160924_224338  20160924_223709

Mas o interior foi a parte que me deixou orgulhosa:

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Todas das bordas foram finalizadas com um revel cortado como peça única (!!!), que  depois foi preso ao forro com uma costura de mão, exatamente como nas peças originais:

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Detalhe do acabamento da manga:

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Ainda não consegui decidir se vou aplicar alguma decoração no bolero, mas gostei tanto da modelagem e do resultado geral que ganhei um pouco mais de confiança para encarar o corpete 1850, com todas aquelas pences anguladas ^^

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