Um traje feminino na Desterro dos 1700s

Seguindo o cronograma preliminar do projeto “Desterro Setecentista” (leia mais aqui), estou na fase inicial de levantamento de fontes. Enquanto a pesquisa vai se desenvolvendo, comecei a revisar o livro que é meu ponto de partida e que consiste em relatos de viajantes estrangeiros que passaram por Florianópolis/Desterro ao longo dos séculos XVIII e XIX.

Muitas dessas expedições, financiadas pelo governo de países europeus, contavam com desenhistas e naturalistas, responsáveis por registrar detalhes da flora e da fauna e também das paisagens modificadas pela ação humana. Então, além dos relatos escritos, era comum que houvesse gravuras, normalmente aquareladas, que complementavam o texto. Algumas dessas gravuras nos trazem, inclusive, informações visuais sobre a vestimenta das pessoas em cada local descrito. Mas a literatura de viagem é uma fonte traiçoeira: era prática corrente que um desenhista copiasse ou se baseasse em desenhos de outros para compôr suas artes e, claro, as representações do corpo humano e dos trajes tendem a corresponder aos ideais da época em que elas eram produzidas. Assim, por exemplo, é que temos as gravuras produzidas por Debret em que as figuras femininas têm pés diminutos e delicados – algo que correspondia ao padrão estético desejável no começo do século XIX. Não raro, especialmente quando se tratava de retratar indígenas ou povos africanos, tanto as gravuras quando as descrições acabavam reproduzindo uma série de estereótipos, que garantiam seu sucesso de vendas na Europa.

Eis que folheando o relato da expedição do Conde Le Pérouse, que aportou em Desterro em 25 de outubro de 1785. Publicado em 1791, o relato traz as obrigatórias descrições sobre o porto da cidade, espécies vegetais nativas, atividades econômicas e uma incrível vista da cidade a partir do atual Hospital de Caridade. E esta gravura tem uma figura feminina com um traje intrigante, para dizer o mínimo:

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O que essa moça deve estar ouvindo do padre?

ANALISANDO O TRAJE

O vestido me parece ser um round gown. Esse estilo foi bastante popular na Europa na década de 1770 e consistia num corpete fechado pela frente e numa anágua e sobressaia feitos do mesmo tecido e costurados de modo a criar a falsa ideia de serem peças independentes. É um estilo simples, que dispensa o uso das anquinhas. Sua forma era dada por almofadas no quadril, os bums. O round gown tanto podia ter o corpete bem pontudo quanto um pouco arredondado. Por se tratar de um traje de uso mais cotidiano, era comum que o decote fosse disfarçado com um grande lenço de musselina, chamado fichu:

1775, MetMuseum.
1775, MetMuseum.

Agora, o véu. Quem conhece um pouco da moda do século XVIII, sabe que não é muito comum vermos imagens de referência acompanhadas de véus. Este véu da imagem não é um invenção do ilustrador. Esta peça até hoje faz parte do traje folclórico de algumas ilhas dos Açores, tendo permanecido como peça feminina de ir à rua pelo menos até a época da Primeira Guerra Mundial (1914). Junto com o capote, outra peça típica açoriana, este véu se insere numa longa tradição ibérica de ocultar as mulheres – o que pode ou não ter uma relação com o fato de que a Península Ibérica foi dominada por muçulmanos durante a Idade Média. Esta lógica ibérica de  literalmente esconder as mulheres era algo que intrigava os estrangeiros que passavam pelo Brasil mesmo já no século XIX.

Este é um cartão postal português do começo do século XX, mostrando três mulheres usando o manto/véu típico da ilha Terceira:

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O uso do véu/manto faz bastante sentido considerando que Desterro recebia levas de imigrantes das ilhas dos Açores dede 1748, dentro da política portuguesa de ocupação do território da parte sul do Brasil. Em 1785, é provável que o ilustrador da viagem tenha visto uma ou mais mulheres fora de casa usando essa peça e tenha resolvido incluir em sua representação.

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